Amor é amor, seja por quem for, amigos, familiares, amantes.
Então porque é que numa relação afectuosa, somos mais tolerantes às imperfeições dos amigos do que somos às do nosso parceiro numa relação romântica?
A resposta talvez esteja nas ilusões que criamos e às quais nos agarramos teimosamente.
Quando se trata de amor — amor romântico, amor sexual e amor conjugal —, precisamos de aprender, a desistir conscientemente de todos os tipos de expectativas.
A não realização destas expectativas românticas ou a morte destas cria nas relações tensões e conflitos, fazendo emergir uma ambivalência, na qual coabitam sentimentos hostis, diria mesmo de ódio contra o companheiro e por vezes contra nós próprios.
A boa ressalva é que, às vezes, o elo entre marido e mulher é mais forte do que qualquer dano que possam causar.
A má ressalva é que nenhum casal de adultos consegue provocar mais dano um ao outro do que marido e mulher.
Na realidade, o facto de se conhecer muito bem o companheiro, sabe-se exactamente quais os calos em que se pode pisar para ofendê-lo assim como também se sabe como acalmar, alisar e fazer as coisas agradáveis. E, embora se pense, ingenuamente, que esse conhecimento serviria para manter os dedos longe dos botões que criam problemas, permitindo a ambos uma espécie de paraíso conjugal, não é assim na maioria dos casamentos, levando a que estes sejam banhados por profundas tensões destrutivas, visíveis ou não.
O sucesso de uma relação assenta num equilíbrio entre amor e ódio.
Leva-se para o casamento uma infinidade de expectativas. Debrucemo-nos sobre algumas delas.
- Sexuais
“Procurei o amor(…) finalmente, porque vi na união amorosa, numa miniatura mística, a visão prefigurada do céu que santos e poetas imaginam.” Bertrand Russel
Visões de míticos êxtases sexuais.
Tentativa de impor à nossa vida sexual muitas outras expectativas, muitos outros “devia ser”, que o acto quotidiano do amor não consegue realizar.
A terra devia tremer. Nossos ossos deviam cantar. Fogos de artifício deviam explodir. Devíamos alcançar o paraíso.
O amor deve ocorrer — ou deve-se fazer sexo — num determinado número de vezes por semana; do contrário, o indivíduo cai em desgraça e fica fora da competição.
Desapontamo-nos.
Estas imposições transformam o acto sexual num teste de desempenho, e na prova do estado de nossa saúde mental, intimidando e envergonhando — e, sim, desapontando — maridos e mulheres que não conseguem o orgasmo apocalíptico.
As expectativas do Bertrand Russel, vão sair goradas.
Para muitos casais — talvez a maioria —, esses momentos são raros e extraordinários.
Há momentos — e são muitos — em que temos de nos contentar com conexões imperfeitas.
- O casamento
Mesmo para quem se casa com uma visão realista do que deve ser o casamento — e da pessoa com quem se está a casar — a condição de casado pode não corresponder a algumas, e às vezes a todas as expectativas.
De que sempre estarão ali um para o outro.
De que sempre serão fiéis e leais.
Que aceitarão as imperfeições um do outro.
Que jamais se ofenderão gravemente.
Que, embora esperando discordar em muitas coisas sem importância, sem dúvida, concordarão nos assuntos importantes.
Que serão honestos e de coração aberto um para o outro
Que um sempre defenderá o outro.
Que o casamento será o santuário, o refúgio, o “céu num mundo sem coração”.
A realidade é que ao lado destas expectativas, coligem histórias de promessas não cumpridas, de males deliberadamente causados, deslealdades, infidelidades, tolerância zero para limites e falhas dos companheiros, e zangas com unhas e dentes sobre assuntos não pouco importantes, como dinheiro, ter filhos, religião e sexo.
Que fazem com que a descrição da relação seja de “inimigos íntimos”.
E por muito firme e sólida que a união seja, há certos momentos em que todo o amor morre, quando o abismo entre o que ela deve receber e o que ele tem para dar não pode ser transposto.
E isto conscientemente sabemos.
Mas como podemos compreender de onde advém as expectativas que temos?
As nossas primeiras lições de amor e a história do nosso desenvolvimento moldam as expectativas que temos no casamento.
Geralmente, estamos conscientes de esperanças não realizadas. Mas levamos também os desejos inconscientes e os sentimentos mal-resolvidos da infância, e, orientados pelo nosso passado, fazemos exigências no nosso casamento sem perceber que as estamos a fazer.
No amor do casamento, procuramos recuperar os amores dos nossos primeiros desejos, encontrar no presente figuras amadas do passado: o pai ou a mãe.
Nos braços do nosso verdadeiro amor, procuramos unir os anseios e objectivos do desejo do passado.
E às vezes, odiamos nosso companheiro ou companheira por não satisfazer esses desejos antigos e impossíveis.
Temos de conseguir distinguir entre os objectivos conscientes e atingíveis e os objectivos inconscientes e inatingíveis”.
No próximo artigo vamos abordar relações que embora pareçam disfuncionais, funcionam para os envolvidos.
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Fonte de informação: Perdas necessárias – Judith Viorst (2004)