Costuma-se dizer que o Amor numa relação acaba porque nos iludimos, porque chegamos à conclusão que as coisas não eram bem como imaginávamos. Bem, sim e não.
Se numa fase de enamoramento todas as particularidades do ser amado nos parecem perfeitamente encantadoras, com o tempo as características vão-se acentuando e o encantamento vai-se diluindo.
Ele deixa de ser visto como um homem impulsivo e arrebatado para passar a ser visto como violento e conflituoso e ela deixa de ser percecionada como risonha, brilhante, imaginativa para passar a ser percecionada como irrefletida, leviana, espalhafatosa, dada a dramas.
E quando se chega a este ponto, acaba por se censurar por cada por ser como de facto é e não como foi imaginado.
E esta censura leva à repulsa.
Tudo o que o outro faz irrita, está sempre errado. A voz torna-se irritante, na realidade nem pode falar que a reacção é agressiva e acusatória, o corpo torna-se indesejável, o odor enoja. A maneira como se veste, como anda como ri, tornam-se fonte de vergonha alheia. Tudo o que diz é entediante, as suas piadas são secas.
Tornamo-nos ausentes daquela relação. E porque já ali não queremos estar começamos a ignorar quem está ao nosso lado, deixamos de escutar, de acariciar, de beijar ou de prestar simplesmente atenção aos seus gostos. Tornamo-nos agressivos.
E isto vale para os dois lados da relação.
E eis o primeiro passo para o fim do Amor.

Simone de Beauvoir